Figuras na História das Relações Bilaterais
17 setembro 2026 13:23
Volodymyr Symonenko (Chefe da missão de manutenção da paz)
Em 1996, o militar ucraniano Volodymyr Symonenko chegou à República de Angola como parte da 901.ª Companhia Independente de Pontões e Pontes das Forças Armadas da Ucrânia. Ele tornou-se participante da Terceira Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM III).
O contingente ucraniano desempenhou tarefas estrategicamente importantes, destinadas à restauração de infraestruturas críticas, à desminagem humanitária do território e ao apoio ao processo de paz após um longo conflito interno no país.
Para Volodymyr Symonenko, a participação nesta missão foi uma etapa marcante da sua carreira militar e uma contribuição pessoal significativa para o fortalecimento da segurança internacional. Após obter o estatuto de veterano de guerra (participante em ações de combate) e concluir o serviço militar, continuou a sua atividade no setor civil, dedicando-se ao trabalho cultural e literário.
A obra criativa do veterano e pacificador merece especial atenção. Volodymyr Symonenko é autor de seis publicações impressas:
  • «O Primogénito» (Pervistok)
  • «Do Zero / Da Página em Branco» (Z chystoho lysta)
  • «Com a Ucrânia no Coração» (Z Ukrainoiu v sertsi)
  • «O Mundo nas Asas» (Svit na krylakh)
  • «O Quarto do Céu» (Kimnata neba)
  • «Uma Selfie para Ti» (Selfi dlia tebe)
As suas obras poéticas e em prosa foram repetidamente publicadas em coletâneas, e o próprio autor foi laureado e premiado em numerosos festivais e concursos literários e poéticos. A história da sua vida é um exemplo de combinação harmoniosa entre o elevado dever militar e o profundo respeito pela palavra artística.
«Memórias africanas…
Era o já distante ano de 1996…
Eu servia na Brigada de Comunicações de Hostomel do Estado-Maior-General da Ucrânia. Era técnico sénior do Centro de Comunicações Espaciais, com o posto de alferes superior.
Era outono. No final de 1995 começou a formação de uma companhia independente de pontes flutuantes, como unidade de manutenção da paz sob a égide da ONU.
Na República de Angola começava a vigorar um cessar-fogo depois de uma longa guerra. No seu território, muitas infraestruturas, especialmente pontes, tinham sido destruídas.
De acordo com a missão que nos foi atribuída, a nossa unidade deveria instalar pontes flutuantes temporárias nas principais vias de comunicação, em várias regiões de Angola, antes da construção de pontes permanentes.
Era urgente garantir o fornecimento de alimentos à população, melhorar as comunicações e criar condições para o desarmamento das forças militares.
Para a companhia foram também formadas unidades de comunicações, tanto rádio como espaciais. A comunicação por rádio entre as unidades da companhia era a principal. O comandante era um excelente radiotelegrafista, o suboficial Vitalii Holub.
As comunicações espaciais eram necessárias ao comando para manter uma ligação permanente com o Estado-Maior-General da Ucrânia.
Recebi uma estação móvel de comunicações por satélite (SATURN), de fabrico norueguês.
Depois de cinco meses de preparação, verificações e consolidação da unidade, em fevereiro de 1996, integrei o grupo avançado que partiu do Aeroporto de Boryspil com destino a Luanda.
O percurso, com escalas, foi: Zurique, Joanesburgo, Windhoek, Luanda.
O objetivo era inspecionar e preparar os locais para a chegada do pessoal e do equipamento por via marítima.
A principal base de receção situava-se nos arredores de Luanda, numa moderna zona residencial. Depois deveríamos deslocar-nos para a cidade de Malanje, no interior do país, mais perto da linha de cessar-fogo.
No hemisfério sul era verão: época das chuvas…
Passar de -20 graus para +35 graus em apenas um dia foi bastante difícil.
Mas nós, ucranianos, conseguimos!
Quando o equipamento e o pessoal chegaram, poucos dias depois caiu uma chuva tropical muito forte!
Na região de Luanda, a força da água destruiu uma ponte importante. O Governo de Angola pediu-nos ajuda.
Foi a primeira missão não planeada que recebemos.
O comandante da companhia, coronel Pinchuk, juntamente com o Estado-Maior, formou urgentemente uma coluna de equipamento para executar a missão. Eu também fazia parte dela.
Conseguimos resolver a situação rapidamente.
E recebemos o primeiro agradecimento do Governo de Angola à nossa unidade e ao seu comando.
Depois veio uma marcha de dois dias do equipamento até à cidade de Malanje, onde a nossa base foi instalada, nos arredores da cidade, num antigo campus universitário.
A companhia ucraniana era a mais significativa, a mais numerosa e a mais respeitada!
Nas proximidades estavam as missões da ONU da Namíbia e de Moçambique, que desempenhavam tarefas nos postos de controlo.
Os nossos homens e o nosso equipamento nunca nos deixaram ficar mal.
Tínhamos mecânicos e especialistas muito experientes na reparação e recuperação de equipamentos. Todas as tarefas eram cumpridas dentro dos prazos e, muitas vezes, até antes do previsto.
E as pontes flutuantes e as travessias que construímos foram, sem dúvida, uma ajuda muito esperada, necessária e insubstituível para o Governo e, sobretudo, para o povo de Angola!
Também participámos, juntamente com especialistas da África do Sul, na desminagem das estradas e de várias áreas do país.
Mas, durante a nossa permanência em Angola, também aconteceram episódios interessantes e arriscados…
A cerca de 40 quilómetros de Luanda, na costa do Oceano Atlântico, havia um grande navio de carga que, anos antes, tinha sido lançado para a praia por uma tempestade.
Ainda era possível ler o seu nome: algo parecido com “Estrela dos Mares”.
Era uma praia bonita, de areia, e não muito longe havia algumas casas dos habitantes locais.
Num dos nossos fins de semana, fomos visitar aquela praia.
Chegámos em dois jipes e parámos junto de alguns coqueiros baixos.
Decidimos apanhar alguns cocos…
Parámos debaixo de uma palmeira. Três de nós subiram para o tejadilho, mas ainda não conseguiam alcançar os cocos.
Era preciso abanarem a palmeira!
Depois da tentativa, os rapazes começaram a saltar do tejadilho, de uma altura de cerca de três metros, sem qualquer corrida.
Em vez de cocos, começaram a cair pequenos escorpiões!
Faziam barulho ao cair sobre o jipe…
Ainda bem que o motorista tinha ficado ao volante: acelerou e afastou o veículo cerca de 15 metros.
Nunca mais repetimos aquela experiência…
Outro episódio aconteceu no rio Lui.
Depois de instalarmos a nossa travessia, ficaram nove soldados contratados e eu, para supervisionar e fazer a manutenção técnica das estruturas flutuantes.
Tínhamos vários camiões e uma escavadora montada num camião KrAZ.
Eu estava num atrelado habitável. Lá dentro havia comunicação por rádio com a base, que ficava a 140 quilómetros, e um cofre com armas.
Os soldados dormiam numa tenda.
Era obrigatório fazer patrulhamento noturno.
Para garantir a eletricidade, ligávamos um gerador a diesel de 10 kW: iluminação, carregamento de baterias, frigorífico com alimentos, comunicações e alguns medicamentos da farmácia.
O cozinheiro preparava comida quente e fresca.
O pequeno-almoço era às 8h00.
Estávamos todos sentados à volta de uma mesa comprida.
Uniforme: sapatilhas e calções.
Eu estava numa das extremidades da mesa.
De repente, senti algo como se tivesse empurrado os meus pés.
Olhei para baixo e vi uma cobra-capelo a passar entre as minhas sapatilhas.
Era comprida e dirigia-se para debaixo da mesa.
Disse calmamente:
- Há uma cobra debaixo da mesa…
Mas todos levantaram imediatamente os joelhos acima da mesa.
Foram três ou quatro segundos de choque geral.
A cobra saiu debaixo da mesa e entrou por baixo do atrelado.
E foi aí que descobrimos que tinha ali a sua toca…
Um minuto depois, ela voltou a pôr a cabeça de fora e ficou a observar-nos.
Ao lado estavam a tenda e a cozinha. Era o centro do nosso acampamento.
A cobra escondeu-se.
Pegámos rapidamente em pás de campanha, prendemos o atrelado a um ZIL e afastámo-lo.
Usámos um pouco de gasolina de um bidão e ateámos fogo, cercando a área.
A cobra saiu, mas não teve tempo de escapar…
Dei ordem para verificarem a tenda.
Lá estavam os coletes à prova de bala, os capacetes e as botas colocadas debaixo de cada cama…
E havia outra cobra-capelo escondida dentro de uma das botas.
Foi apanhada!
No território do acampamento quase não havia erva, mas a cerca de 50 metros tinha crescido vegetação e havia uma árvore isolada.
Uma hora depois decidi aproximar-me dela.
Quando estava a cerca de 10 metros, outra “capelo” levantou-se da erva à minha frente.
Olhei para ela e comecei lentamente a recuar.
Ela baixou-se e também recuou.
Observei-a: não muito longe da árvore havia uma toca.
Repetimos o “concerto” todos juntos mais uma vez…
Perto dali estava uma grande tenda-armazém de um engenheiro sueco chamado Svensson.
Ele estava sozinho na tenda e contratava trabalhadores da aldeia mais próxima por um dólar por dia para construir uma ponte rodoviária permanente.
A ponte ficava ao lado da nossa ponte flutuante.
Conversávamos com ele e eu partilhava eletricidade com ele.
Contei-lhe sobre a nossa aventura.
Duas horas depois, ele mostrou-nos uma cobra-capelo que vivia dentro da sua própria tenda…
Outro episódio aconteceu a cerca de 12 quilómetros do nosso acampamento.
Começava ali uma região montanhosa e, logo de seguida, uma subida para um desfiladeiro com cerca de 1,5 quilómetros.
A descida era bastante íngreme e a estrada tinha muito movimento.
Os veículos utilizavam as nossas pontes flutuantes!
Certa vez, numa descida, um dos camiões angolanos saiu da estrada e ficou preso numa vala entre a rocha e a estrada. Do outro lado havia uma ravina.
O camião transportava uma grande carga.
Vieram pedir-nos ajuda.
Eu tinha uma escavadora montada num KrAZ.
Num raio de 100 quilómetros havia apenas savana e aldeias.
Não existia nenhuma outra máquina semelhante.
A estrada estava bloqueada.
Informei a base e levei dois ZIL e a escavadora para ajudar.
Foi difícil: o espaço era muito reduzido, de um lado havia a rocha e do outro a ravina.
Mas conseguimos.
Ao final do dia, a estrada estava desimpedida e o trânsito voltou a circular.
A reputação da nossa equipa cresceu ainda mais.
Na verdade, houve muitos episódios semelhantes com todos os nossos homens.
Cada um guarda as suas próprias histórias.
Quando começamos a recordar os acontecimentos, eles surgem uns atrás dos outros, como contas de um colar…
Podemos agradecer ao Destino e dizer:
“Tenho a honra de ser um PACIFICADOR!”
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